Miscelâneas
Escrita Chinesa

 

Traços em todas as direcções. Em todos os sentidos vírgulas, colchetes, parênteses, dir-se-ia que acentos, em qualquer altura, a todos os níveis; desconcertantes moitas de acentos.

Gatafunhos, roturas, princípios que parecem ter sido subitamente abortados.

Sem corpo, sem formas, sem figuras, sem contornos, sem simetria, sem um centro, sem lembrar nada de conhecido.
Sem regra aparente de simplificação, de unificação, de generalização.

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Passagem.
O gosto de ocultar venceu. Venceram a reserva, a prudência, a discrição natural, a instintiva tendência chinesa para apagar vestígios, para evitar encontrar-se a descoberto.

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Ser calígrafo, como se é paisagísta. Melhor. Na China, é o calígrafo que é o sal da terra.

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Nesta caligrafia – arte do tempo, expressão do trajecto, da corrida – o que suscita admiração (para além da harmonia, da vivacidade, e dominando-as) é a espontaneidade, que pode ir quase até à explosão.
Deixar de imitar a natureza. Significá-la. Por traços, arrebatamentos.
Ascese do imediato, do relâmpago.

Tal como são actualmente, afastados do seu mimetismo de outrora, os sinais chineses possuem a graça da impaciência, o levantar vôo da natureza, a sua diversidade, a sua maneira inigualável de saber submeter-se, pular, levantar-se.

Assim como faz a natureza, a língua, na China, propõe-se à vista, e não decide.

O seu pouco de sintaxe que deixa adivinhar, recriar, que deixa lugar à poesia. Do múltiplo sai a ideia.

Caracteres abertos sobre várias direcções.

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A caligrafia: tornar patente, pela maneira como se tratam os signos, que se é digno de saber que se tem, que se é um letrado de verdade. Por aí se será... ou não será justificado.

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A língua chinesa era capaz disso. Por toda a parte proporciona ocasiões à originalidade. Cada caracter fornece uma tentação.

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Só a “justa proporção”, o “justo lugar” importam.

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Mostrar um belo equilíbrio, um que seja exemplar. Até os apaixonados a quem chamaram “loucos de caligrafia”, e nela perdiam o beber e o comer e o sono e o equilíbrio de uma vida, traçavam, quando retomavam o pincel, caracteres isentos de desequilíbrio, cheios, pelo contrário, de um novo e soberbo equilíbrio.
A ordem superior é dinâmica.

"Ideogramas na China" de Henri Michaux
Tradução de Ernesto Sampaio