Leitura do Rio

"Mistura de raças, importância obsessiva do dinheiro, busca ansiosa do prazer, sensualidade, luxo, politicagem, intrigas financeiras, administrações ineficientes, festas frenéticas, fanatismo esportivo, todas essas características do Rio são encontradas nas cidades do período alexandrino.
Alexandria, Éfeso, Antioquia, Pérgamo e tantas outras cidades do Oriente helenístico não deveriam ser muito diferentes do Rio. "

Alberto Moravia


Croquis de Le Corbusier, Rio de Janeiro, 1929

Como diz Ruben Pesci, desde o alto, o Rio, esta "cidadenatureza", com seu enorme pulmão verde ( essa magnífica floresta no meio) percebe-se unitária e ao mesmo tempo fragmentada em mil pedaços. A unidade sendo estabelecida pela natureza, com o homem ( rico ou pobre) inserido onde pode, e muitas vezes, onde não devería.

Desde as primeiras percepções diz ele, tornam-se evidentes as diferenças desta cidade com as da herança espanhola. Os espanhóis nunca teriam se estabelecido num lugar tão anticlássico, o que evidencia uma diferença de civilização. A sensualidade e a musicalidade na cultura portuguesa se sobrepoem à razão. Neste sentido, as condições topográfico-paisagísticas são determinantes, com sua multiplicidade de situações de borda: mar aberto, lagoas, morros, bahia.

O Rio é uma cidade de interfaces naturais, possuindo uma enorme variedade de situações ambientais onde se fusionam espaço e sociedade, natureza e construções. Isto define também o seu caráter. O Rio inclui várias cidades numa só. Ela não é urbana no sentido tradicional deste conceito; não é centralizada, nem radiocêntrica, nem convergente. O Rio é uma aglomeração multipolarizada, muito mais rizoma ( no sentido deleuziano ) do que árvore ( no sentido alexanderiano ).

De acordo com Pesci, o Rio inverte as relações, faz do centro histórico uma área quase sem interesse, transforma as praias em centros comerciais e residenciais e faz dos seus antigos bairros, áreas de pobreza e colorido popular. Foi Le Corbusier quem melhor captou a essência desta estruturação, em 1929, quando a sintetizou num desenho emblemático constituído por um gigantesco edifício-autopista que costura os morros pelo alto, opondo um esquema de tira "arranha-terra" ao típico esquema de torre “arranha-céu”, e que continua funcionando como um interrogante crítico em relação com o modo de ocupação vigente.

O Rio inclui sempre uma dualidade, pares opositivos sempre solapados: praia e morro, avenidas ornadas de palmeiras e a poucos metros ruas sórdidas , morros iluminados como árvores de Natal à noite, e paisagem de pobreza pela manhã. Como já foi assinalado, do luxo ao lixo a distância no Rio é muito curta.

Para Pesci, o Rio é um assentamento português povoado de influências africanas, como pode se constatar na observação do uso das calçadas (quando não estão ocupadas pelos automóveis) servindo para todo tipo de atividades (comercio informal, oferendas religiosas, música, prestação de serviços, etc. ).

A cidade foi crescendo buscando aproveitar e desfrutar de um lugar sem paralelo, e enquanto teve uma dimensão física controlável e a produção de marginalidade sob certos limites, os seus problemas pareciam domináveis. Hoje, com uma área metropolitana gigantesca onde se movimentam diariamente milhões de pessoas através da sua estrutura urbana sempre precária, com algumas classes sociais tentando "invadir a praia " e outras tentando abandoná-la ( mais nem tanto ), esta "cidade partida" mostra a cada passo suas duas caras: inferno e paraíso, luxo e pobreza escancaradas.

Porém, nos últimos anos os seus habitantes (tanto no âmbito público quanto privado) parecem estar saindo de uma posição de resignação, de que as coisas "são assim mesmo" e estão procurando novos caminhos. Hoje percebem-se numerosos sintomas de renovação na cidade (recuperação de áreas públicas, urbanização de favelas, recuperação do centro, discussão sobre a área portuária, etc.).

Por outro lado, hoje também nas grandes cidades contemporâneas o espaço público adquire todas as formas e é o campo de expressão de todos os imaginários. Fator número um da regeneração do tecido da cidade atual, ele tem importante papel pela frente.

Por isso aquilo que dá força a uma cidade, a mistura, a reunião do diverso, não deve ceder passagem à separação. Shoppings, autopistas e torres isoladas são parte de um fenômeno de banalização das cidades, e o Rio não é uma exceção. Assim, entre o modelo francês (o republicano, o da escola pública) que mistura as pessoas e no qual agente é antes de mais nada, cidadão, e o modelo norte-americano no qual agente é primeiro membro de uma comunidade, alguns parecem querer optar por este último, e isto está se demonstrando um grave erro. Deveria se evitar de todas as maneiras possíveis o processo político-social de separação das comunidades, fonte de violência, arrastões, etc.

Aqui no Rio é necessário priorizar o que mistura e reúne e evitar a separação por setores sociais. Ao mesmo tempo, o espaço da residência, do trabalho e do tempo livre estão em crise em todas partes do mundo e isto torna necessário pensar novos lugares para que as pessoas vivam, trabalhem e se encontrem. Precisamos novos espaços urbanos que não eliminem as particularidades e que não impeçam a mistura.

O espaço público é a imagem coletiva da cidade, e constitui (e sempre tem constituído) um excelente terreno para a inovação física e articulação social, um laboratório para o conjunto do urbano pois ele atua como uma caixa de ressonância das demandas locais. O Barão Haussmann e todos os urbanistas do início do século o sabiam.Em relação com as intervenções no espaço público, é necessário levar em consideração o fato de que o custo das redes subterrâneas, as infra-estruturas básicas, consomem perto da metade dos recursos afetados ao espaço no caso da cidade formal, enquanto nas favelas este percentual sobe ainda mais.

A cidade de amanhã precisa reencontrar os signos particulares da sua identidade para que o espaço público volte a ser um lugar de aprendizado do civismo, redefinindo as relações entre o público e o privado, entre pedestres e automóveis, entre massa verde e massa construída como queria Lúcio Costa, entre tradição e contemporaneidade.

No meio urbano, e no Rio em particular, coexistem hoje e buscam-se equilibrar, lógicas produtivas, tecnológicas e formais muito contrastadas ( envolvendo complexidade e diversificação) o que representa um valor positivo, uma condição antropológica que exige ser gerida e não suprimida, e que demanda como complemento novos códigos de comportamento entre as pessoas.

Nestas circunstâncias, o objetivo das intervenções de escala urbana na atual conjuntura deve se encaminhar para a busca atenta de equilibrios locais, de ecologias difíceis no seio de um mundo cada vez mais mediatizado tecnológicamente.

E porque o futuro será muito parecido com o presente, é que devemos fazer os projetos já!

 

 



Vista do Conjunto Pedregulho de Affonso Eduardo Reidy,
durante visita feita com o arquiteto Enric Miralles


Publicação Jornal Clarín, 2008

Jorge Mario Jáuregui