“Feijoada Completa” “ Mulher, você vai gostar: O ato de comer envolve historicamente a necessidade de se alimentar mas constitui simultaneamente um fato social e cultural. As megacidades contemporâneas são o campo de expressão de todos os imaginários e também o lugar onde o luxo e a pobreza, o excesso de comida de um lado e a fome do outro, mostram esse lado sombrio da humanidade que Sigmund Freud denominou "mal estar na civilização". A comida não envolve só o hábito alimentar senão que inclui uma concepção de vida e de relação com o outro, que hoje precisa ser redefinida à luz de uma ecologia da existência. Hoje verificamos no planeta um excesso de comida para uns e uma a falta total para outros. Alguns sofrem de obesidade e outros morrem literalmente de fome. Excesso e falta , ambos mostram o déficit do que poderíamos chamar "inteligência social" em muitas das ações humanas. Lógica, inteligência e solidariedade não se coadunam no presente da humanidade, quando atinge o marco de 7 bilhões de seres humanos, alguns sofrendo por excessos e outros por falta, ambos mostrando o quanto é necessário redirecionar comportamentos e hábitos, na linha do que Thierry Paquot denomina de "ecologia existencial" isto é, a necessidade de corrigir comportamentos tanto individuais quanto coletivos. Evidentemente isto demanda essa inteligência social pois os problemas sempre têm solução, exigindo apenas novas formas democráticas de organização e representatividade, no interior de cada país e também à escala internacional, global, nos organismos de representação dos diferentes países. Os processos caóticos da “urbanização” contemporânea abrangem aspectos físicos ( infra-estruturais, urbanísticos, ambientais ) sociais ( econômicos, culturais , existenciais ) , ecológicos ( ecologia mental , ecologia social , ecologia do meio ambiente) , aspectos de segurança do cidadão, e as suas intersecções com as questões do sujeito contemporâneo que envolvem modificações nas relações de trabalho , de comunicação , de uso da cidade e dos comportamentos alimentares. Assim, as demandas para a articulação da cidade e da sociedade dividida abrangem aspectos múltiplos que têm a ver com a condição de cidadania. Hoje, com a instalação de destacamentos de polícia nas principais favelas do Rio de Janeiro e com a urbanização promovida pelo PAC ( Programa Aceleração do Crescimento ) novas condições de acesso por parte da população em geral e inclusive turistas , estão sendo criadas. Equipamentos tais como o teleférico do complexo de Favelas do Alemão ,o passeio público de Manguinhos, o plano inclinado de Santa Marta ou o elevador do Cantagalo, permitem e promovem novos usos e condições de acesso às favelas o que faz com que surjam nelas novas ofertas de atividades antes impossíveis de imaginar. Além do “turismo favelar” oferecido por agencias de viagem nas favelas antes mencionadas por exemplo, surgem pontos de oferta gastronômica que paulatinamente vão sendo absorvidas e integradas às ofertas da cidade junto com os torneios de “bicicross”, espetáculos teatro e dança, entre outras atividades; novos pontos gastronômicos estão aparecendo a cada dia nos anúncios formais e informais da cidade. Há no pé da favela da Babilônia , no Leme, no bairro de Copacabana, restaurantes que oferecem pratos especiais para turistas e estudantes que buscam conhecer mais de perto o “o mundo da favela”. No Cantagalo por exemplo já funciona desde o réveillon de 2010, uma oferta de visita para assistir aos fogos artificiais da cidade no réveillon, acompanhada de uma ceia especial de fim de ano. No entanto existe o risco dessas alterações contribuírem para uma cosmopolitização das políticas públicas urbanas que significam o abandono da produção. Esta tendência limita os usos urbanos à habitação, cultura, turismo e setor terciário, remetendo o antigo setor transformador e produtivo para o domínio da memória, ou para as periferias ( sejam estas periferias urbanas em "países desenvolvidos" ou em países periféricos). As megacidades de hoje tendem para a cidade dos serviços. Assim, onde antes se pescava são projetados aquários, passeios turísticos e hotéis que se aproveitam da memória da atividade pesqueira. Onde existia indústria existem hoje bares, discotecas, livrarias, indústrias criativas, que se aproveitam da memória através da estética industrial. Onde existia produção agrícola criam-se quintas pedagógicas e restaurantes biológicos que se aproveitam da memória da atividade agrícola. Mas desta maneira muitas vezes, transformam-se as áreas de produção urbana em áreas de serviços, cultura e lazer, buscando conceitos urbanos que se aproveitam da memória das atividades abandonadas, não tomando, por vezes, em consideração as atividades produtivas e o conhecimento a estas associado. Com isto não se pretende o regresso a uma visão passadista ou bucólica da produção urbana. A produção urbana ( seja agrícola, pesqueira , ou industrial ) deve adaptar-se aos avanços da técnica tornando-se compatível com as outras funções da cidade. Se durante a Revolução Industrial , estas atividades eram vistas como poluidoras em vários sentidos , hoje com os avanços tecnológicos podemos começar a rever as compatibilidades e as articulações entre as diversas funções que foram expulsas da cidade. Por exemplo habitação e criação de animais, hortas e restauração, industria e lazer,etc. Na Rocinha, além da infinidade de restaurantes que existem na comunidade , freqüentados por gente de dentro e de fora da favela, existe um local ( uma escadaria por dentro de uma casa particular ) que permite o acesso ao teto de uma casa que pertence a outro dono chamada "a Lage " onde se realizam eventos, festas, comemorações e onde se oferecem comidas e bebidas especialmente elaboradas, na qual a famosa "feijoada completa"é presença garantida. Uma das versões da origem do nome de Rocinha data dos anos 20 quando no bairro vizinho da Gávea existia uma feira de frutas, verduras e legumes muito bem reputada quanto à qualidade dos seus produtos. À curiosidade dos clientes por saber de onde vinham tão boas verduras, os comerciantes respondiam "vêm da minha rocinha". Significando que vêem de minha pequena horta. A Rocinha é hoje o hábitat de mais de 100.000 pessoas, morando em cerca de 20.000 Em cada Estado da Federação do Brasil ela adquire singularidades pela incorporação de componentes locais e pela variação do próprio "feijão" em cada região do país. O convite para "comer uma feijoada" implica um ato de abertura ao outro que é quase impossível de rejeitar sob pena de ficar mal visto. Pois o "evento feijoada" é uma forma de participação e conexão e inclusão social ao qual somos convidados. A forma de apresentação da feijoada, seja no restaurante ou na casa de amigos ou conhecidos é sempre algo que envolve os olhos, o olfato e uma cerimônia ( o ritual ) de sermos parte de um evento de caráter quase familiar. A forma de apresentação à mesa envolve uma serie de elementos e componentes de diversa natureza e tamanho. Assim o arroz é servido em pequenos potes de dimensão de um prato normal espalhados pela mesa, enquanto o feijão é servido em inúmeros suportes de barro para mantê-lo na temperatura necessária. A couve e a farofa ( esta última nas mais diversas variantes ) são servidas também cada um em travessas diferentes. Todos estes componentes juntos, enchendo completamente a mesa, dão idéia de uma fartura de alimentos que transmite alegria de viver e ser parte desse "festim". A naturalidade e a diversidade de cada componente da feijoada favorecem o estimulo do apetite, tanto para quem pertence aos setores privilegiados da sociedade quanto aos setores populares. A inseparável caipirinha de entrada e a generosa cerveja durante a comida favorecem a conversa. É toda uma pequena odisséia de comida que é vivida pelo olhar. A visualidade dos componentes não apresenta um "centro"; os distintos elementos são dispostos como uma coleção de fragmentos dos quais nenhum é privilegiado por uma ordem de posição à mesa, ou por ordem de importância. Assim como na Feijoada, no Urbanismo não existem receitas definidas , a busca das soluções varia consoante o lugar. É preciso entender-lo nas suas múltiplas camadas, nos seus múltiplos centros e formas de apresentação. Por isso todo o projeto deve partir da leitura das condições locais, da "escuta" das demandas, da interação com os outros campos do saber, e realizar uma síntese onde se define a espinha dorsal que permitirá oferecer um caminho ordenado à proposta de ações de transformação. O ideal urbanístico atual seria pois poder oferecer lugares interconectados como espécies de Novas Ágoras contemporâneas onde trabalho, habitação e recriação se entrelacem numa continuidade interior-exterior, como em "Roma" de Fellini, fazendo da rua uma sala de estar onde a convivialidade e a co-existência das diferenças possa ter lugar. No relativo à comida , a musica “Comida” de Arnaldo Antunes diz : A gente não quer só comida Hoje o que é necessário repensar é a relação entre a cidade: configuração espacial definida pelo assentamento de construções permanentes, habitada por uma população numerosa, densa e heterogênea, conformada essencialmente por estranhos entre si ; a urbanidade: modo de vida caracterizado pela mobilidade, pela agitação como fonte de estruturação social, e pela proliferação de redes relacionais. Sociedade que normalmente se move, e ocasionalmente, se mobiliza e o espaço público: superfícies em que se produzem deslizamentos dos quais resultam uma infinidade de entrecruzamentos e bifurcações; cenário das agitações humanas, onde as dimensões políticas e culturais estão no centro das questões, segundo Manuel Delgado. As grandes cidades contemporâneas sofrem da falta de espaços congregativos onde os seus habitantes possam se encontrar, compartir e intercambiar experiências, interesses, produtos e saberes, em um marco físico estimulante da vida em sociedade. O que hoje faltam são espaços de uso coletivo qualificados para a realização de todo o tipo de atividades de inclusão social, interconectados por transporte público não poluente, eficiente e de qualidade. A cidade do século XXI precisa de ser amável, democrática, inclusivista, verde e fértil. Devemos revisar e reorientar a relação entre massa verde e massa construída como falava Lucio Costa, hoje na direção de uma nova "natureza urbana" e de um novo "contrato social" no qual a reorientação dos comportamentos seja capaz de gerar um entorno mais favorável à vida para todos os seres deste planeta, garantindo menos sofrimento tanto para os seres humanos quanto para o mundo animal. A"função social " de um arquiteto, a minha por exemplo, é ser um "prestador de serviços", pensando primeiro no interesse ( a lógica de toda a cidade ) e complementariamente no interesse do cliente público, ou privado, individualmente ou coletivo, sem privilegiar nenhum destes termos, mesmo correndo o risco de por vezes perder o projeto. Isto porque existe uma relação estreita entre ética ("fazer o que deve ser feito"), estética ( o desafio do novo) e política (as sempre difíceis relações com as estruturas do poder) e o arquiteto/urbanista se movimenta sempre entre compromissos, conflitos, interferências e transformações... É na relação arquiteto-cliente onde deve ser construída, através do diálogo, a possibilidade projetual, e por isso existe uma dimensão "didática" no trabalho (do arquiteto), relativaà capacidade que um projeto pode ter de mostrar ( permitir ao outro ) compreender o que tinha "direito à desejar" e não sabia "antes do diálogo". É por isso que todo projeto se reveste de um significado especial que o coloca, como a comida, como parte do campo da cultura. Jorge Mario Jáuregui |